domingo, 17 de junho de 2018







Advogado popular dos Fóruns e Redes de Cidadania, militante de longa data e defensor dos direitos do povo camponês brasileiro está sofrendo uma ação na comissão de ética da OAB-MA. Quem organiza essa ação vem por parte de latifundiários do estado do MA, em especial de forma a impedir a atuação de Iriomar Teixeira na luta pela terra na comunidade de Santa Maria.


Iriomar Teixeira é um advogado jovem e militante, grande liderança do movimento camponês do Maranhão. A ação contra ele mobilizou vários militantes, da cidade e dos campos do MA, para a sede da OAB-MA, onde levantaram a defesa do advogado no dia 14 desse mês. Imagens abaixo:

Casa cheia em defesa do companheiro Iriomar.

Grito de guerra: "Poder Judiciário, Conservador e Reacionário!"

Mobilização nas ruas da capital, São Luís




Discurso de Iriomar

Discurso em defesa de Iriomar pela companheira Marinalva:
https://www.facebook.com/francinaldo.alves.7/videos/1648391388615271/

Outra intervenção na frente da OAB-MA

No dia 9, o advogado esteve no município de Peri Mirim, onde apoiou uma ocupação de latifúndio pelos camponeses dos FeR:

"Na cidade de Anajatuba, MA, a comunidade Perimirim resisti contra o latifúndio e o agronegócio. 
Na última semana os bravos companheiros acamparam por 7 dias para evitar a entrada do fazendeiro que ja estava loteando a área para vender.

Militantes de todo o Maranhão estiveram presentes para apoiar a luta e fortalecer a resistência.

O advogado popular e assessor jurídico dos Fóruns e Redes de Cidadania, Iriomar Teixeira, discussou no acampamento e m seguida foi realizada uma bonita marcha pelas ruas da comunidade."

Aqui o vídeo do discurso do advogado na ocasião:

PROTEGER NOSSOS LÍDERES, DEFENDER NOSSO POVO!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Tambor pra Pau d'Arco ("Olha lá!")


Cantiga produzida coletivamente no VII Curso de Formação de Militância dos Fóruns e Redes de Cidadania, dia 20/01/2018.

CADA VEZ QUE DO POVO TIRAM TERRA
CADA VEZ QUE UM COMPANHEIRO TOMBAR
SUA MEMÓRIA VIRARÁ CANTO DE GUERRA
E NA REVOLUÇÃO AGRÁRIA NOSSA FORÇA ELE SERÁ

ESSES DEZ NÃO SERÃO SÓ MAIS DEZ
QUEM CAI NA LUTA RENASCERÁ
COMO ESTRADA A GUIAR NOSSOS PÉS
SEJA LÁ EM PAU D'ARCO OU EM QUALQUER LUGAR

OLHA LÁ OLHA LÁ OLHA O LATIFUNDIÁRIO
(NA REVOLUÇÃO AGRÁRIA ELE VAI TER QUE TRABALHAR)
OLHA LÁ O GAÚCHO QUE COMPRA O JUDICIÁRIO
(NA REVOLUÇÃO AGRÁRIA ELE VAI TER QUE TRABALHAR)
OLHA LÁ O GRILEIRO QUE OS CAMPOS CERCOU
(NA REVOLUÇÃO AGRÁRIA ELE VAI TER QUE TRABALHAR)
OLHA LÁ O DEPUTADO QUE SE CHAMA DE DOUTOR
(NA REVOLUÇÃO AGRÁRIA ELE VAI TER QUE TRABALHAR)

OLHA LÁ OLHA LÁ OLHA LÁ OLHA LÁ!
NA REVOLUÇÃO AGRÁRIA ELES VÃO TER QUE TRABALHAR!

domingo, 21 de janeiro de 2018

A QUESTÃO DO SEPARATISMO SULISTA-PAULISTA

Pedro Weingärtner - Peões laçando o gado (1908)

Nesse texto político, pretendo argumentar sob a luz do marxismo-leninismo o caráter geral do separatismo sulista no Brasil. Primeiro, sob um argumento mais pretensioso – o de que a segunda onda de imigração europeia no Brasil, especialmente no Sul e Sudeste, vem com um estilo assentador-colonial, o que entra em contradição com o estilo explorador-colonial da primeira onda de imigração. Depois, vou comparar a partir daí o argumento sulista com o de outros movimentos separatistas no mundo e analisar semelhanças e diferenças. No final, fazer propostas aos marxistas-leninistas, democratas e revolucionários, sobre como lidar com o fenômeno.
                                                                               
Introdução

Os movimentos separatistas no sudeste e sul do Brasil são carregados pela pequena e média burguesia locais, pelo pequeno e médio latifúndio local, assim como setores fascistas organizados que desviam toda atenção para si. Apesar do caráter geral do movimento, ou seja, pequeno burguês, pode vir a assumir características de massa em momento de crise geral do estado nacional.

O argumento separatista se baseia principalmente em um pilar econômico e outro social-cultural; sendo que a predominância de um ou outro oscila e depende da discussão. Todavia, a história colonial específica das regiões é rememorada em ambos os argumentos:

- No âmbito econômico, se rememoram os conflitos históricos entre a pequena e média burguesia locais com o dito “Estado Brasileiro”, no caso, as grandes burguesias. Essa história é tratada como uma continuidade, uma vez que seria “prelúdio” para argumentar um caráter independentista, rebelde e autossuficiente da economia local.

- No âmbito social-cultural, se argumenta a descendência colonial alemã, italiana ou outra, reforçando as diferenças de tradição para com o resto do Brasil. Há aqui uma reivindicação que pode assumir caráter chauvinista e eurosaudosista.

PRIMEIRA PARTE


Modelo geral explorador-colonial

Dentre os modos de colonização desenvolvidos pela Europa Ocidental temos dois processos dominantes e que definirão, ao menos de forma embrionária, o tipo de capitalismo que surgirá na colônia. A base econômica definirá a superestrutura, criando mentalidades coloniais diferentes.

O paradigma de colonização ibérico geral é explorador-colonial... Mas também o foi da Bélgica em Congo e etc.; França em Haiti, Algéria, Guiana Francesa e etc.; da Inglaterra em Índia, Butão, Estados sulistas dos EUA e etc.; não sendo este modelo particularidade de Portugal e Espanha.

 Em toda América Latina, Caribe, África e Oriente, as colônias ibéricas sofreram formas semelhantes de exploração, assim como uma mentalidade diferente de explorador. Entre outras características gerais, estas colônias usam da escravidão em sua base produtiva, exportam dentro do modelo mercantilista para a metrópole, reproduzem política de divisão territorial entre funcionários do Estado/da Coroa...

Com a falência da exploração mercantilista, as ex-colônias também seguirão com algumas semelhanças: caráter semi-feudal de relações produtivas, economia agroexportadora baseada em latifúndio, republicanismo (inicialmente) descentralizado, etc.

Os colonos, em consequência, desenvolverão cultura e ideologia semelhantes; ao menos num primeiro momento. O fato de serem enviados pelo estado como funcionários de sua economia cria uma relação de desenvolvimento dependente para com a metrópole. Não se entendem desbravadores de terra, senão, funcionários do Rei. Todavia, não são a base produtiva da sociedade, mas capatazes brutalmente fiéis: os escravos ameríndios ou africanos desempenham essa função – apesar de também serem de certa forma também funcionários do Rei/ da Igreja, não possuem direitos, bens e nem mesmo humanidade.

Os colonos ricos são burocratas do estado colonial ou latifundiários, e continuarão o sendo após o colapso do mercantilismo. Os colonos pobres, sobrepeso das caravelas, serão funcionários assalariados dos primeiros. Em algumas dessas colônias, incluindo o Brasil, vai acontecer o fenômeno do surgimento da pequena-burguesia antes da burguesia. Nelson Werneck Sodré, em Síntese da História da Cultura Brasileira, pontua que:

Decerto, os germes dessa camada intermediária [a pequena-burguesia] haviam surgido muito antes e crescido devagar, recrutando-se os seus elementos, particularmente, no comércio, no reduzido aparelho de Estado, nas atividades que exigiam o trabalho livre, de modo geral. Só a mineração, entretanto, decuplicando a população, conferindo-lhe poder aquisitivo e multiplicando a divisão do trabalho, abriu amplas perspectivas  de desenvolvimento para essa camada, gerando a singularidade histórica do aparecimento da pequena burguesia antes do da burguesia. Ela será, assim, o veículo da transplantação: não apenas é atraída pela ideologia burguesa - como acontece, em geral, com a pequena burguesia, enquanto a classe dominante apresenta vigor - como pelos valores de uma burguesia externa, uma vez que não existe, praticamente, essa classe, na colônia e no Império.

Nessas formações, portanto, a pequena e média burguesia urbana vai assumir caráter revolucionário-republicano e, em parte, anti-feudal; profundamente inspirada pelo liberalismo europeu. A aliança entre esses setores com a massa camponesa e semiproletária – baseando-se não em defender a república burguês-liberal, mas em rechaçar o feudalismo e o latifúndio – vai se tornar uma força particularmente poderosa. Aqui é caso da Revolução Mexicana, da Revolução Paraguaia ou da Marcha de Simon Bolívar – todas com lideranças nativas ou mestiças do campo e da cidade.

A mestiçagem é uma decorrência importante de se analisar do modo de produção explorador-colonial. Parte significativa dessas colônias na América Latina, sobretudo o México e o Brasil, vai criar uma população “mestiçada com branco”, que comporá futuramente a classe média urbana, sem os privilégios racistas dos colonos “puros”, nem a desumanização do ventre escravo de onde vieram. Note que enfatizei “com branco”, pois no caso do Brasil, por exemplo, pra não confundir, por exemplo, com o “cafuso”, miscigenação entre índio e negro, que vai formar a base do campesinato pobre e população urbana periférica.

Isso é uma decorrência do próprio modelo produtivo, que precisa pôr os colonos ricos e pobres, os escravos e camponeses semiproletários dentro do mesmo processo produtivo, servindo direta ou indiretamente ao Estado colonial. A mestiçagem acontece, no Brasil, através do estupro sistemático de escravas por seus senhores; pelo sistema de apadrinhamento como descrito por Darcy Ribeiro; pelas relações inter-étnicas dentro dos quilombos, missões e povoados; pela própria proximidade dentro do sistema produtivo entre os trabalhadores mestiços, brancos pobres e negros libertos/fugidos; pelos casamentos (arranjados ou não) entre a elite branca e a pequena-burguesia mestiça e ascendente.

Modelo geral assentador-colonial

O outro modo de colonização é o assentador-colonial. Entender a diferença de propósito entre os dois modelos é crucial para que prossigamos a exposição. Aqui não existe um projeto objetivo e direto de pilhar os recursos coloniais para a Coroa/metrópole, mas de aliviar excedente populacional e marcar território, principalmente. Os colonos são arremessados em “terra de ninguém” (ou seja, terra indígena), e dados a responsabilidade de habitar e assentar a terra por conta própria. Ainda que ela fosse, teoricamente, do Estado metropolitano; os colonos aqui eram infinitamente mais independentes e responsáveis pela produção econômica colonial.

Exemplos de ex-colônias de assentamento são os estados nortistas dos EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Rodésia (hoje Zimbábue) – colônias britânicas –, África do Sul – colônia holandesa –, Libéria, Havaí, Porto Rico – semicolônias ianques – Israel – pelo projeto ianque-sionista – entre outros.

A base econômica assentadora-colonial também vai gerar uma mentalidade assentadora-colonial. A falta de orientação mercantilista para a superprodução faz com que as propriedades fundiárias sejam mais descentralizadas; que a pequena-burguesia possa experimentar concorrência ao desenvolver o mercado interno entre cidades emergentes (juntamente com um sentimento liberal-independentista mais acirrado); que o trabalho escravo seja reduzido, em especial na área urbana; que as propostas de colonizar terra indígena sejam garantida com posse efetiva de território, etc. O projeto colonial de implantar em terra alheia uma semente de Europa é evidente: as cidades e estados coloniais são uma nova York, uma nova Hampshire, uma nova Jersey e até mesmo uma New England.

Em contraposição à vizinha colonização espanhola do México, onde a maior parte da energia do colono era gasta em subjugar a brava resistência indígena ao trabalho escravo; a colônia britânica na América simplesmente exterminava ou forçava migração de todo e qualquer “pele-vermelha” que estivesse na propriedade que lhe fora garantida pela Coroa britânica, o “fardo do homem branco” e seu “destino manifesto”.

Não por acaso, a impressão cultural causada por essa forma de expansionismo tem como resultado política mais ou menos semelhante ao apartheid sul-africano ou o Jim Crow ianque. A mentalidade de assentador-colono é auto-dignificante e auto-contemplativa; afinal de contas, o colono não é funcionário do Estado e sim, um self-made man. Ele tem o direito de passar por cima de tudo e todos com especial frieza e sadismo, não por que essa era a determinação econômica de seus chefes lá no além-mar, mas por volição própria.

A formação de grupos “não-oficiais” de caça e extermínio étnico de nativos também são especialmente presentes nessas ex-colônias, a exemplo da KKK nos EUA e da AWB na África do Sul. Juntamente a elas, os projetos, esses oficiais e legitimados pelo Estado, de segregação étnica/racial.

Outra onda de colonização no Brasil


Capa da revista "O Immigrante" (1908)

Citei acima, o que penso ser consenso geral, que a forma de colonização da primeira onda migratória europeia ao Brasil foi exploradora-colonial. Mas aqui argumento que as seguintes ondas tiveram caráter diferenciado, a meu ver, as decorrentes da vinda da família real ao Brasil, de portugueses e ingleses especialmente; e as do séc. XIX, de alemães e italianos especialmente.

Qual é o caráter dessa nova leva colonial europeia? Quem eram esses migrantes, por que vinham ao Brasil e em que terra se firmavam?

Pelo “Tratado de Tordesilhas” acordado pelas potências colonialistas ibéricas, parte significativa do que hoje é o Sul do Brasil era pertencente à Espanha; isso muda somente em 1750 com o “Tratado de Madri”. Para ocupar essa terra “vazia” o Estado brasileiro incentiva fortemente, no séc. XVIII, a imigração europeia, que monta no local uma economia pecuária, de charqueiros, tropeiros e agricultura familiar; onde antes predominava a pequena produção de missões jesuítas. Os que já possuem um pequeno capital abocanham um pedaço maior do que o oferecido pela Coroa portuguesa. É digno de nota que os primeiros enviados são portugueses que já tinham tradição assentadora-colonial na ilha de Açores. Nos pampas, os alemães chegam em meados de 1824; e, à seguida, holandeses, poloneses, italianos, etc. da Europa e também japoneses. Os imigrantes italianos e alemães que vêm, vêm como excedente populacional; em especial, resultantes dos processos tardios de unificação de ambas nações. Os migrantes posteriores vem em projeto semelhante para o trabalho rural cafeeiro nos latifúndios do Sudeste, ou para as cidades cosmopolitas; como trabalhadores livres, manufatureiros, pequeno-burgueses ou operários.

Apesar de também terem vindo europeus migrantes para o Nordeste, é no Sul em especial que eles terão condição suficiente para, finalmente, assentarem-se à terra e reproduzirem sua europeidade, seja em uma Nova Pádua ou um Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul, ou mesmo no Vale Europeu em Santa Catarina, entre outros exemplos. Esse grupo que agora vem, sem dúvidas, reproduz uma mentalidade assentadora-colonial; mesmo que não tenha mudado o caráter geral da semicolônia Brasil.

Aqui reproduz-se, em especial depois da primeira geração, já com um caráter nostálgico, o paradigma que foi posto anteriormente: o self-made man, que vem desbravar terra indígena, altamente independente e liberal. Comparativamente, aqui também existe a expansão sobre as terras “vazias”, empurrando qualquer população indígena pra fora; além de uma tendência maior ao apartheid social e maior delimitação entre o miscigenado e o descendente de Europeus (o orgulho da ascendência portuguesa é muito menos reivindicado que o seu par italiano ou alemão); nessa região também existe chauvinismo tipicamente assentador-colonial para com o resto do Brasil, em especial os “mais enfaticamente brasileiros” – os que só carregam essa identidade, os nordestinos e indígenas do Norte (não obstante a formação de organismos de perseguição étnica, neonazistas, carecas e fachos, é mais intensa nessas regiões); etc.

No caso, há também certa resistência à unidade nacional devido ao caráter tardio dessa “colonização”, que tem de submeter-se ao Estado indígena, ou seja, o Estado brasileiro, de capitalismo burocrático. Esse tipo de resistência, com suas peculiaridades, seria um dos fatores da Guerra Civil ianque. O conflito entre as duas formas de colonização ianque foram irreconciliáveis: uma tendia ao capitalismo burocrático e desenvolvimento do latifúndio, a outra, ao capitalismo industrial e monopólio imperialista; entre o Norte, assentador-colonial, contra o Sul, explorador-colonial; entre a indústria com emprego de mão-de-obra assalariada e plantation com escravidão negra.

Porém, o desenvolvimento desses modelos coloniais foi desigual nos EUA. Quando o sistema explorador-colonial começa a ser implantado pelos bretões no EUA por seus funcionários, é de forma tardia e o processo de assentamento já estava em alta. Isso é tão notável que à essa época, já não sobraram mais índios para serem escravizados, tendo os colonos sulistas que recorrer ao mercado negreiro. Aqui argumento o seguinte: a introdução de um modelo explorador-colonial em uma sociedade assentadora-colonial em desenvolvimento (caso dos EUA) causa muito mais impacto que a introdução de elementos assentadores-coloniais em uma sociedade exploradora-colonial desenvolvida (caso do Brasil). O é, porque o projeto explorador-colonial é impresso de forma objetiva, organizada e intensa por uma potência igualmente feroz; enquanto o projeto assentador-colonial se expande de forma dispersa, processual e multipolar. Isso justifica porque as tensões entre modelos de colonização entre o sul e o norte dos EUA levaram a uma guerra civil e no Brasil não.

Ainda que não fosse suficiente ou relevante o bastante pra mudar estruturalmente a base econômica vigente, esse deslocamento ideológico do assentador-colono europeu com relação ao Brasil, terra indígena, onde certa noção geral de “brasileiro” e “brasilidade” já estava formado ou em formação, pode ser suficiente razão para o surgimento de tensões separatistas. O que intensifica essas tensões a ponto de torná-las um movimento relativamente sólido é, de fato, o caráter reacionário do Estado brasileiro, que violenta e explora todo o povo brasileiro em todas regiões do Brasil, que se revolta seja na Farroupilha ou em Canudos.

SEGUNDA PARTE


Caráter de classe

A reivindicação separatista sulista-paulista poderia ser em alguma circunstância revolucionária? Primeiro analisemos o caráter de classe deste separatismo. Mesmo que possa receber em algumas regiões apoio de trabalhadores rurais, donas-de-casa e do minifúndio; o caráter definitivo desses movimentos é pequeno-burguês. É pequeno-burguês na orientação, na proposta, na ideologia e mesmo demograficamente. Quais são as consequências disso?

A pequena-burguesia é uma classe intermediária e de transição, e vacila entre interesses de classe e valores contraditórios. Como diz Lênin, até a mais revolucionária pequena-burguesia não pode querer o que o proletariado consciente de sua classe quer; devido a seu caráter difuso, disperso, instável, individualista e incapaz de atuar como classe organizada. Porque importante reforçar o caráter de classe desses movimentos? Lenin diz, As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo:

“Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam - e, pela sua situação social, devam - formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.”

Um projeto pequeno-burguês já deve ser acusado como tal; todavia, através da análise histórica feita, o projeto separatista ainda possui um agravante: não somente é representativo da pequena-burguesia local, mas a reprodução ideológica do projeto assentador-colono “derrotado” da segunda onda de colonização. Essa união entre práxis pequeno-burguesa e memória assentadora-colonial não é exclusiva do Sul do Brasil.

Catalunha ou Quebec?

Em 2017, setores de movimentos separatistas brasileiros se aproveitaram da comoção causada pelo referendo pela independência de Catalunha para defender sua proposta. Não só é uma demonstração de oportunismo desesperado mas de como a análise desses grupos é completamente deslocada da realidade. A independência da Catalunha é uma reivindicação histórica de um povo nativo que faz parte de uma federação organizada por um projeto feudal; os catalães não são assentadores da região mas o povo indigente. A unificação das coroas de Aragão e Bragança expandiu território levando para esse projeto artificial de unificação da Espanha as terras de Galícia, do País Basco, da Andaluzia, de Portugal e outras.

Comparar a gloriosa resistência, sobretudo antifascista, das Unidades Federais da monarquia espanhola com o grupelho assentador-colonial sulista-paulista é, primeiramente, a demonstração de uma autoestima excessivamente inflada. Segundo, é que aqui reside uma tentativa de unir opostos sob a bandeira do “separatismo”, da “independência” ou do “regionalismo”, querendo fazer parecer Palestina quem é Israel.

Muito diferente do nacionalismo e separatismo da nação catalã; o separatismo sulista-paulista, com suas características pequeno-burguesas e assentador-colonialistas, tem semelhança objetiva com o Movimento pela Soberania de Québéc (QSM) na zona francófona do Canadá; assim como também o nacionalismo da área de Cascadia nos EUA. Em especial, o QSM busca estabelecer uma República do Québec, usando como argumento as contradições entre os dois grupos de assentadores-colonos franceses e britânicos que invadiram a terra nativa do Canadá, do povo guerreiro onkwehón:we e outros.

O QSM se apresenta tanto em forma de grupelhos fascistóides, quanto em movimentos de "esquerda nacionalista" colonial (especificamente o "Réseau de Résistance du Québécois" e o "Front de libération du Québec"). Eles também se veem como uma nação oprimida dentro de uma república burguesa. As contradições de fato existem: o suprematismo anglófono tem como base a vitória inglesa sobre os colonos franceses gera particular chauvinismo interno dentro da república; todavia, essas contradições são entre dois projetos assentadores-coloniais e, nesse sentido, não antagonistas - como seria a contradição do projeto assentador-colonial contra as populações indígenas originárias.
Logo, o nacionalismo québécois não poderia ser revolucionário, mas, como ideologia advinda de um projeto colonial, que só difere do outro por ser um projeto derrotado, tem caráter revanchista, de reacionarismo assentador-colonial e nacionalismo branco. Esses comentários se expandem ao separatismo em Cascadia, Appallachia e Califórnia, nos EUA; e, tem caráter semelhante ao sulista-paulista no Brasil: resultado de contradições entre dois projetos coloniais. Todos os comentários sobre Québec são relevantes nesse sentido (ver artigo "Settler-Colonialism in Disguise: An Indigenist Critique of Québécois" de Enaemaehkiw Túpac Keshena)

Não devemos vacilar: se existe uma nação a que deve ser dada soberania e o direito de constituir um Estado autônomo, essa será uma nação ameríndia, estando associada ou não aos quilombos. Beneficiar com esse projeto uma instigação assentadora-colonial não só se põe no caminho dessa reivindicação justa, como auxilia para dividir a classe operária e camponesa do Brasil.

Ainda que existisse de fato uma “Nação Sulista/Paulista” sob as demarcações da teoria leninista de nação e pátria, ou seja, se entrasse em todos os pontos constituintes levantados por Lênin e Stálin em questão de autodeterminação dos povos; a secessão não deveria ser apoiada pelos comunistas e democratas. Pelo simples fato de que atenderia ao interesse do imperialismo e seu “dividir para conquistar”.

Usar dois dos maiores dirigentes do proletariado mundial como filósofos burgueses, ou seja, que criam “moldes ideais”, “categorias” e “definições transcendentais”, que devem ser tomados como dogma e não a partir de um profundo entendimento das contradições em questão. O próprio Stálin deixa isso claro, em Fundamentos do Leninismo:

[“(...) a necessidade do apoio, apoio decisivo e ativo, por parte do proletariado, ao movimento de libertação nacional dos povos oprimidos e dependentes”] não quer dizer, naturalmente, que o proletariado deva apoiar todo movimento nacional, sempre e em qualquer parte, em todos os diferentes casos concretos. Trata-se de apoiar os movimentos nacionais que tendam a debilitar, a derrubar o imperialismo, e não a consolidá-lo e a conservá-lo. Há casos em que os movimentos nacionais de determinados países oprimidos vão de encontro aos interesses do desenvolvimento do movimento proletário. Compreende-se que, em tais casos, não se pode falar de apoio. A questão dos direitos das nações não é uma questão isolada, independente, mas uma parte da questão geral da revolução proletária, uma parte subordinada ao todo e deve ser encarada do ponto-de-vista do conjunto. Marx, entre 1840 e 1850, era favorável ao movimento nacional dos poloneses e dos húngaros e contrário ao movimento nacional dos tchecos e dos eslavos do Sul. Por quê? Porque os tchecos e os eslavos do Sul eram, então, "povos reacionários", "postos avançados russos" na Europa, postos avançados do absolutismo, ao passo que os poloneses e os húngaros eram "povos revolucionários" em luta contra o absolutismo. Porque apoiar o movimento nacional do tchecos e dos eslavos do Sul significava, então, apoiar indiretamente o tzarismo, o mais perigoso inimigo do movimento revolucionário na Europa.

Por isso líderes revolucionários e leninistas como Ibrahim Kaypakkaya não desvinculam a luta pela libertação de nações oprimidas (no caso de seu país, Turquia, o Curdistão e segmentos na região da Anatólia) da Revolução de Nova Democracia; em sua brilhante intervenção contra os revisionistas em A questão nacional em Turquia. O revolucionário brasileiro deverá ter isso claro em mente quanto à questão, como já foi mencionado acima, do ameríndio e do quilombola.

Um suposto estado parido de secessão, no Brasil, enfraqueceria o imperialismo ou o fortaleceria/preservaria? Sabemos que a segunda resposta é a certa, pois a pequena e média burguesia que encabeça esses movimentos dificilmente fariam frente contra os ianques e europeus – seja ela ideológica ou estratégica. O oposto é verdadeiro: podemos identificar caráter eurosaudosista e de “dupla identidade” nos argumentos. Mais um caso de que como reacionários podem apelar à teoria do proletariado pra justificar seus desvios pequeno-burgueses e emocionados.

TERCEIRA PARTE


Di Cavalcanti - Colonas (1940)


A burguesia e a pequena burguesia inevitavelmente irão externar sua ideologia. Eles se expressarão, obstinadamente e por todos os meios possíveis, em questões políticas e ideológicas. Não se pode esperar que eles atuem de forma diferente. Não devemos, recorrendo a coerção, impedir que se manifestem; pelo contrário, devemos permitir que façam isso e, ao mesmo tempo, debater com eles e sujeitá-los a críticas apropriadas. É indubitável que devemos criticar ideias errôneas de todos os tipos. É inadmissível, é claro, abster-se de criticar as ideias erradas, contemplar com indiferença como elas se espalham por toda parte e permitem monopolizar o mercado. Todo erro deve ser criticado e toda erva venenosa combatida. No entanto, a crítica não deve ser dogmática; ao fazê-lo, não se deve usar o método metafísico, mas se esforçar para aplicar o método dialético. Deve conter análise científica e argumentos bastante convincentes. Uma crítica dogmática não resolve nada. Nós lutamos contra todos os tipos de ervas venenosas, mas devemos distinguir cuidadosamente quais são verdadeiras ervas venenosas e quais são flores originais e perfumadas. Devemos aprender, juntamente com as massas populares, estabelecer esta distinção cuidadosamente e usar métodos bem sucedidos para combater as ervas daninhas venenosas.
Mao Tsé-Tung, Sobre o tratamento correto das contradições no seio do povo.

Não imagino que estes argumentos serão de grande utilidade para debater contra separatistas, que possivelmente são em maioria avessos ao teor da literatura trazida. Por isso me dirijo aos companheiros marxista-leninistas, em especial os da região.

No clima de decomposição do Estado republicano brasileiro, esses grupos podem assumir caráter de massa. Claro que permanecerão utilizando-se da liderança vacilante e demagoga da pequena-burguesia. Isso é um indício, sobretudo, de que a história já exige que exista um partido revolucionário proletário para orientar essas reivindicações através da linha de massas.

Sob a assustadora presença de elementos fascistas, de chauvinismo assentador-colonial, de racismo e outras mazelas, existem reivindicações pontuais. A falta de infraestrutura, de acesso à educação, a tomada de medidas impopulares pelo Estado, a cobrança abusiva de impostos sobre parcelas médias e baixas da população... O trabalho incansável dos separatistas, claro, será de relacionar essa indignação ao seu projeto assentador-colonial e, por vezes, de criar na figura de nordestinos e nortistas bode expiatório (“parasitas”, “sanguessugas”, etc.).

O trabalho do revolucionário é justamente de desmentir essa falsificação da realidade; claro, dando sempre preferência a camponeses, operários e jovens que possam estar inebriados com a fácil solução apresentada pela sua pequena e média burguesia local. As melhores estratégias para esse fim certamente serão desenvolvidas pelas organizações que usem linha de massas, respeitando as particularidades locais. Ainda assim, gostaria de sugerir que os revolucionários e democratas devem:

  1. Sustentar que o “Estado Brasileiro” é uma entidade abstrata e que sua representação objetiva se dá a partir interesses de classe. Ou seja, tornar a discussão uma discussão sobre classe, e não sobre o Estado. A burguesia local também possui interesses na manutenção do subdesenvolvimento das regiões, para manter seus monopólios e latifúndios. A luta contra o Estado burguês é a luta mesma contra a burguesia, e não se resolverão os problemas advindos do Estado burguês com a formação de outro Estado burguês. As elites sulistas e paulistas são tão brutais e reacionárias quanto as elites de qualquer outro lugar do Brasil, e não sofrem opressão nacional diferenciada. Também por isso, o povo da região sul e de São Paulo sofrem da violência do Estado e de suas elites parasitárias como em qualquer outro lugar do País. Existem mais semelhanças que diferenças, enfim, porque o caráter opressor da burguesia e do latifúndio é a mesma lá e cá.
  2. Combater o chauvinismo e o culturalismo, expondo que isso só serve aos interesses da burguesia, que mais facilmente poderá manter o proletariado em grilhões se ele estiver fragmentado. Sustentar assim, que a unidade nacional em torno do caráter de classe não deve impedir as tradições, religiosidades e culturas do povo, mas que também trata elas todas em pé de igualdade.
  3. Lutar pela integração nacional das lutas por terra, trabalho e pão no Brasil inteiro, de forma de que o proletariado e o campesinato das regiões todas tenham perfeita compreensão de que a mudança radical no sistema só virá através de um esforço coordenado, massivo e classista.

Nota: uma pessoa recentemente pôs a questão do que fazer caso uma manifestação pacífica desse tipo ou um referendo seja suprimido violentamente pelo Estado reacionário. Ainda que seja mera ginástica cerebral, talvez possamos começar essa discussão de antemão. Esses momentos são perigosos pois os oportunistas irão querer o palanque para berrar a “confirmação” de suas teses. O trabalho de uma vanguarda, nesse sentido é de rechaçar violentamente o agressor e hegemonizar essa discussão, sem fazer médias; fazendo o que for preciso para manter um caráter de classe claro: defendendo o povo brasileiro contra o Estado burguês-latifundiário em mais uma ação desproporcional de violência, e não o “povo sulista/paulista”, como os pequeno-burgueses irão fazer. Questionar seus motivos de organização como pressuposto para o apoio num momento assim parece-me irrelevante. Elementos fascistas à parte, podem haver lá membros das massas que estão sendo ludibriados e levados com a corrente pela falta de um partido revolucionário.


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

"Jesus; Sua Terra, Seu Povo, Sua Proposta" - Ação Católica Operária


"Jesus nasceu, cresceu, viveu numa certa época da história, há cerca de 2000 anos, num país determinado, chamado Palestina. Jesus nasceu pobre, viveu no meio do povo, trabalhador igual aos outros trabalhadores."

http://www44.zippyshare.com/v/UTz7ZcKu/f

ESTUDAR COM RESPEITO A RELIGIOSIDADE DO POVO!

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"Síntese da História da Cultura Brasileira" - Nelson Werneck Sodré


"Do que ficou narrado, deduz-se que o problema inicial, para a cultura brasileira, é o da retomada da liberdade; sem liberdade de pensamento e de expressão, não há condições de desenvolvimento cultural autêntico"


ESTUDAR À FUNDO AS ESPECIFICIDADES DE NOSSO PAÍS!
VIVA NELSON WERNECK SODRÉ E OS PENSADORES DO BRASIL!

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

"Fazer da Escola uma Base para o Povo tomar o Poder" - Samora Machel




"O dever de cada um de nós é dar tudo ao povo, sermos os últimos quando se trata de benefícios, primeiros quando se trata de sacrifícios. Isso é que é servir o povo."


ESTUDAR  PROFUNDAMENTE A TEORIA REVOLUCIONÁRIA!
VIVA SAMORA MACHEL!