O VII ENCONTRO DOS FÓRUNS E REDES DE CIDADANIA FOI UM SUCESSO!
Não
somente porque todos nossos objetivos foram alcançados com êxito e com grande
entusiasmo por parte do povo, mas porque os nossos militantes saíram ainda mais
conscientes de que nossa luta é justa e de que é honroso dar a vida por nossa
gente!
Escrito por Daniel Moreno e revisado por Jorge Moreno.
1
“O risco que corre o pau corre o machado...
Não há o que temer...”
Como se
limpando o terreno para deixá-lo propício pra nosso encontro, já começamos as
falas no dia 27 exaltando a vitoriosa retirada de cercas num trecho de quase 30
km no município de Arari.
Vários
militantes, de Arari e de fora, sobretudo o advogado popular Iriomar Teixeira;
realizaram a derrubada das cercas ilegais do latifúndio, aos gritos de “Abaixo as cercas, campos livres!”. Essa
não é a primeira ação do tipo que fazemos esse ano – antes fizemos o mesmo em
Anajatuba, e já se planeja fazer a seguir, em Primeira Cruz. Os latifundiários
são grileiros, a cerca que eles põem para nós vale tanto quanto o mijo de um
cachorro pra demarcar território. A terra é pra quem nela vive e trabalha – “o eucalipto nos mata de sede, a soja de
fome/ é da roça de toco, que o povo come!”. Fiquemos vigilantes. Ninguém
vai roubar a terra de nosso povo!
| Iriomar Teixeira, Advogado do Povo |
| Abaixo as cercas, campos livres! |
2
“Povo unido e organizado luta e vence!”
Depois de
cantar a cantiga “Fóruns e Redes é que
nem Jucá” e chamar os 65 militantes representando cada um dos 21 municípios
dos FeR e também os 37 militantes nossos na comunidade de Santa Maria para
dentro do barracão construído pela Associação de Moradores, começamos nossa
programação. Chamamos à frente representantes das organizações populares da
comunidade de Santa Maria: da Horta Coletiva, da Roça Comunitária, da Cantina
Popular, da Organização das Mulheres, da Organização das Crianças e de Jovens,
da Associação de Moradores de Santa Maria 1 e 2, do Núcleo de Cultura, da
Alfabetização Popular, da Escola Popular Sebastião Zulima – Além do Advogado
Popular Iriomar Teixeira; o Relator de Direitos Humanos e juiz Jorge Moreno; o
Doutor Popular dos FeR Zé Simão e o lendário líder sindical e quilombola Justo Evangelista,
hoje com 83 anos. Nossas bandeiras foram postas na frente do barracão e cada um
dos presentes na frente receberam os militantes vindos de fora e acolhendo em
sua comunidade.
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| Representantes da comunidade convocados. |
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| Barracão construído pela associação de moradores. |
3
A
Horta está verde e linda. Cebola, coentro, pimenta, couve, cheiro-verde, quiabo
e outros vegetais estão sendo plantados e colhidos pelos homens e mulheres da
comunidade. Tudo irrigado por um poço, também construído em comunidade.
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A Roça comunitária vai bem – com um
quadro de 40 linhas, e outro com 50 linhas, já se planeja uma grande colheita
para o ano seguinte. Planta-se arroz, feijão, maniva e milho. Também em rama,
se planta abóbora, melancia, fava, melão; e o feijão-do-pé de-milho, que cresce
se enrolando no milho.
O representante da Roça avisou que os roceiros
estão sendo intimidados pelos latifundiários: encontraram várias cruzes postas
no caminho da roça, como se ameaçando a morte. O tiro, todavia, saiu pela
culatra: “se botarem dez cruzes na roça da comunidade, vamos botar vinte na
deles!”.
5
“Justiça vamos conquistar; a história não
falha, nós vamos ganhar!”
A roça também sofre ameaça da juíza da
comarca de Urbano Santos, que tenta de todas as formas despejar a comunidade em
favor do “Gaúcho”, grileiro que se
diz dono da terra. Todos sabem dos métodos fraudulentos do dito-cujo: a anos
atrás, mandou gente em seu nome para colher assinaturas da população da cidade.
Grande parte dos lavradores e donas-de-casa da comunidade, analfabetos ou
semianalfabetos, foram coagidos a assinar documentos que mais tarde ele usaria
para “justificar” a posse de sua terra.
“Hoje
eu não assino nada sem a autorização do meu advogado!” disse o Doutor
Popular pelos FeR Zé Simão; ao contar que recentemente enxotou uma funcionária
que bateu em sua casa pedindo-o pra assinar outro documento.
No
dia 8 desse mês, foi feito uma marcha no município de Urbano Santos contra as
decisões da “justiça” de criminalizar
o povo que trabalha em ações fraudulentas à favor do Gaúcho. A marcha cruzou a
cidade, passando em frente à prefeitura, no TRE e desembocando no fórum, para
ir de encontro com a juíza... Que não estava lá! No fim, queimamos, como costumeiro, uma cópia de
sua declaração de despejo. Para nós, vale quase nada.
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Vários companheiros interviram. Na foto, o juiz Jorge Moreno.
|
TODOS EM FRENTE
AO FÓRUM!
TODO PODER AO POVO! VIVA A COMUNIDADE COMBATIVA DE SANTA MARIA!
TODO PODER AO POVO! VIVA A COMUNIDADE COMBATIVA DE SANTA MARIA!
6
Os trabalhos de alfabetização popular
também foram relatados como sucesso. Vários adultos já estão exercitando
leitura e escrita; alguns destes, de tanto entusiasmo, foram em cartório tirar
novamente seus documentos, dessa vez assinando o nome ao invés de usar a
digital. Um companheiro da comunidade puxou uma toada de boi em comemoração:
Eu não 'seio' ler
Eu não 'seio' ler
Mas esse ano eu vim aprender
O mundo ficou que nem balança
Pra pesar vingança
De quem merecer
7
A
Cantina Popular prospera e traz comida e mantimentos baratos e de qualidade
para o povo. O objetivo é acabar com o monopólio dos mercadores locais, que
estabelecem preços arbitrários a bel-prazer, subjugando as comunidades à sua
vontade. Dessa forma, os militantes organizam redes de compra e circulação de
mercadorias das cidades para os campos – e também trazendo colheitas e feitios
de outras comunidades onde as cantinas existem, como no Cassó – alterando o
preço no mínimo e reinvestindo o lucro para que os trabalhos permaneçam sendo
autossustentáveis.
No último censo feito, os preços da Cantina Popular estão saindo ainda mais barato que nos supermercados da capital.
8
“Algumas vezes, o nome da pessoa já diz quem
ela será o resto da vida”
Depois da
apresentação feita pelo advogado Iriomar Teixeira e o juiz Jorge Moreno, foi
dada a fala ao grande companheiro Justo Evangelista, Herói do Povo. Apesar de
seus oitenta e três anos, doente de câncer e impedimento da rótula, estava
contente e animado para conversar sobre sua história.
Líder quilombola e sindical, foi o
primeiro vereador negro do Maranhão e um “cabra marcado pra morrer”, em sua
época. Escondido de igreja em igreja, com ajuda de padres engajados na luta por
terra, em especial Dom Xavier, corria pelo Maranhão inteiro fugindo de
pistoleiros e jagunços. Nunca arredou o pé, todavia. Quando um latifundiário
exigiu despejo de uma comunidade e do cemitério próximo a ela; onde estavam
enterrados vários mortos da Guerra do Paraguai, principalmente negros; o
próprio Justo organizou e convocou em armas a comunidade para emboscar os
jagunços derrubando árvores à frente e atrás, o que fizeram com sucesso. Capturados, os pistoleiros foram postos
nus e abandonados longe de lá. Essa foi apenas uma das várias histórias que ele
nos contou durante os três dias que passou conosco.
Quando o juiz Jorge Moreno o conheceu
tinha apenas 17 anos de idade e foi na surdina para uma reunião de comunidade
onde Justo estava, dando as diretrizes de ação da comunidade, mesmo estando
sendo perseguido por pistoleiros.
Feliz e emocionado de estar sendo
lembrado por sua história de luta, disse que já não sentia mais nenhuma dor em
seu corpo, e que podia agora morrer feliz. Mal sabia que a sua homenagem mal
tinha começado.
No dia seguinte, os Fóruns e Redes, sob decisão conjunta e voto popular, decidiu conceder a Justo Evangelista o título de Doutor Popular – aquele que, mesmo não tendo educação formal e à vezes nem alfabetização, formou-se na escola do trabalho e da vida comunitária e esse conhecimento e sabedoria vale mais que mil títulos oficiais. Outros homenageados com o título são Dr. Pop. Luiz Vila Nova, Zé Simão e Sebastião Zulima. Com suas falas aprendemos, as suas histórias estudamos e à seu exemplo nos formamos.
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| Fala de aceitação do Dr. Pop. Justo Evangelista. |
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Todos os presentes foram abençoados individualmente pelo Dr. Popular ...
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...E todos juntos o abençoaram de volta.
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Uma das histórias contadas pelo Seu Justo diz
relação a um parente de sua esposa, conhecido por sempre entrar em briga nas
festas, que gostava de duelar faca com os outros. Todos sabiam seu truque pra
sempre vencer, mas quem aceitava o desafio sempre acabava furado. Justo
explicou o que era: o sujeito era canhoto e sempre colocava a faca na cintura,
às costas. Quando ia brigar, a mão direita segurava a bainha e a esquerda
segurava a faca. O duelista desviava da bainha, pensando que era a faca, e caía
no golpe da faca, que estava na mão esquerda. Seu Justo usou dessa analogia pra
explicar: “A lei é a bainha, é com ela
que assustamos, mas sabemos que não é ela que vai resolver o duelo; é a nossa
organização que é a faca – ela que dará o golpe verdadeiro no inimigo”.
Logo essa sabedoria se tornou uma frase de ordem, que foi cantada várias vezes
nos momentos seguintes.
9
Junto ao cartaz em homenagem ao Dr.
Justo, foram impressos outras homenagens, montadas em grandes painéis feitos de
palha.
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Neste painel, temos a imagem do Doutor Popular Sebastião Zulima,
liderança histórica de Santa Maria e Raíz. À direita, palavras de ordem e
demandas colhidas do povoado.
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| Homenagem aos camponeses mártires da Chacina em Pau d'Arco... |
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| ... E do Centenário da Revolução Soviética. |
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Che Guevara e o Advogado Popular Iriomar Teixeira.
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Painel completo com figuras históricas selecionadas entre várias lideranças do movimento.
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“Sebastião,
nós vamos ventar esse fogo pr’outro lugar... Pr’outra direção...”
O maior de todos os murais, todavia, era para o herói de Santa
Maria, o Dr. Pop. Sebastião Zulima. Nele, a frase que Sebastião tinha usado no
primeiro encontro dele na comunidade com os FeR. Um relato que fizemos na
ocasião foi publicado no jornal A Nova Democracia, e o link está aqui: (http://anovademocracia.com.br/noticias/7954-sebastiao-azulim-pioneiro-da-roca-popula).
No segundo dia ele veio nos prestigiar e contou novamente sua
história, lamentando que a comunidade estivesse sendo novamente ameaçada de
despejo. Enfim, três dos nossos quatro Doutores Populares estavam presentes, Zé
Simão, Justo Evangelista e Sebastião Zulima.
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VIVA O DR. SEBASTIÃO ZULIMA!
PIONEIRO DA ROÇA COMUNITÁRIA!
PIONEIRO DA ROÇA COMUNITÁRIA!
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“Eu sou feliz é na comunidade, é na comunidade que eu sou feliz...”
Como parte da celebração pelo “batismo” de nossos dois Doutores Populares Sebastião Zulima e Justo Evangelista, preparamos juntamente com a comunidade uma tradicional Festa de São Gonçalo. Chico Lourenço, liderança comunitária em Santa Maria, Conselheiro Popular e memória viva das tradições do povo deu a todos instrução, e, obedecendo sua autoridade, organizamos a cerimônia.
A Festa de São Gonçalo combina dança, cantoria, arrumação de cenário e leilão. Seu Chico foi o responsável por dar todas as diretrizes, e tudo correu lindamente. Seu entusiasmo foi tamanho, que mesmo com mais de 70 anos, ele sozinho quis liderar todas as etapas de preparação da festa, inclusive na montagem do Arco de São Gonçalo, o qual ele foi de forma desavisada buscar os talos de cana pra montar. O amor, dedicação e ternura com que Chico Lourenço nos ajudou a reviver a tradição da comunidade nos inspirará e motivará no futuro.
Ele está disponível em (https://mupororoca.blogspot.com.br/2017/12/qual-o-carater-das-eleicoes-de-2018.html)
A recepção ao texto foi surpreendentemente positiva e me foram feitos alguns questionamentos. Correrei atrás de responder - isso motivará meus estudos a seguir.
A Festa de São Gonçalo combina dança, cantoria, arrumação de cenário e leilão. Seu Chico foi o responsável por dar todas as diretrizes, e tudo correu lindamente. Seu entusiasmo foi tamanho, que mesmo com mais de 70 anos, ele sozinho quis liderar todas as etapas de preparação da festa, inclusive na montagem do Arco de São Gonçalo, o qual ele foi de forma desavisada buscar os talos de cana pra montar. O amor, dedicação e ternura com que Chico Lourenço nos ajudou a reviver a tradição da comunidade nos inspirará e motivará no futuro.
As expectativas estavam altas, e não foram em vão. A festa foi longa:
durante quase duas horas e meia dançaram duas filas cada uma com 17 pessoas,
nove “jornadas” (o percurso da dança do começo ao fim), intercaladas com valsa, forró pé-de-serra e três
momentos de leilão. Chico Lourenço estava em par com a sua filha Lindalva na
frente e os dois guiavam o resto.
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| O arco de São Gonçalo, construído com apreço aos detalhes. |
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| Uma galinha e um galo, doados pela comunidade para o leilão. |
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| Todos os bolos e pratos foram doados pela comunidade. |
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No fim do segundo dia, eu (Daniel Moreno) redigi um texto de crítica a alguns discursos que ouvira durante a plenária da tarde, quanto ao papel de nosso movimento nas eleições de 2018 em especial. Inicialmente, fiz o texto só para ser lido por um ou dois, mas meu pai (Jorge Moreno) logo viu a oportunidade de usá-lo pra incitar debates entre os militantes e imprimiu algumas cópias do texto, dando para ser lido e apurado em pequenos grupos.
Ele está disponível em (https://mupororoca.blogspot.com.br/2017/12/qual-o-carater-das-eleicoes-de-2018.html)
A recepção ao texto foi surpreendentemente positiva e me foram feitos alguns questionamentos. Correrei atrás de responder - isso motivará meus estudos a seguir.
13
Num balanço geral desses dias do VII Encontro, temos um clima geral de vitória - nenhum dos compromissos foram deixados de serem cumpridos. Mais que isso, recebemos, com entusiasmo, bem mais que o esperado. E é essa uma característica vital de nosso povo, especialmente o camponês: entusiasmo e carinho intensos. Não só fomos recebidos em suas casas e em suas mesas de jantar, mas em abraços apertados; no meio de anedotas e cantorias; por entre bençãos e conselhos.
Quando Che Guevara diz: "Sem perder a ternura, jamais"; mais que qualquer coisa, ele faz uma proposição de caráter geral aos revolucionários, em especial aos da América Latina. Se antes de tudo, um revolucionário deve ser um com o povo, em nosso estado e em nosso país isso significa sobretudo ser terno e carinhoso como nosso povo é.
A ainda existência de ternura e sensibilidade tão intensas entre as camadas mais violentadas pela luta de classes é não só um relato da força de resistência das massas; mas também de que estas, compostas de raízes ameríndias, africanas e mamelucas, desenvolveram com a história seus próprios métodos ímpares para manutenção de sua existência comunitária.
Devemos compreender profundamente como corresponder ao entusiasmo de nosso povo, para que, além de nos tornarmos simplesmente mais carismáticos, tratemos de fazer dessa correspondência uma das bases sobre a qual se formará um Novo Homem, enfaticamente brasileiro e profundamente socialista. Mais que qualquer outra coisa, foi a confirmação disso que a militância no movimento camponês me confirmou.
Então, antes de mais nada...
VIVA O VII ENCONTRO DOS FeR!
VIVA A COMUNIDADE DE SANTA MARIA!
VIVA A INCANSÁVEL LUTA POR TERRA!
VIVA TODOS OS HERÓIS DO POVO!
... E a nosso povo, QUE VIVA PLENAMENTE!
Carinhosamente, Daniel Moreno; estudante universitário.


































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